‘Como cheguei aqui’ com Ulysses Albuquerque

*Entrevista com Ulysses Paulino de Albuquerque, professor titular do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Pernambuco.

This interview is also available in English HERE.

Ulysses Albuquerque

Como você define a sua profissão, como etnobotânico ou tem outra forma de se ver?

Eu me formei em biologia e meu mestrado e doutorado foram na área de biologia vegetal. Por muito tempo me defini como etnobotânico, mas dada a interdisciplinaridade da etnobotânica, comecei a dialogar cada vez mais com profissionais de outras áreas e aos poucos meus interesses de pesquisa se expandiram. Hoje em dia, diria que trabalho principalmente no campo da etnobiologia, com um enfoque particular nas interações entre pessoas e plantas e com um quadro teórico que vai da psicologia evolucionista, botânica e ecologia clássicas, genética e antropologia ecológica. Meu principal interesse de pesquisa é, portanto, entender a evolução humana em relação aos recursos naturais, para o qual uso uma abordagem muito interdisciplinar.

Descreva o seu trabalho e o que você vê como sua missão.

Sinto-me engajado em três missões diferentes. Quando comecei a estudar etnobotânica, ao final da graduação, percebi que havia uma grande lacuna de textos de referência, manuais, livros didáticos e protocolos metodológicos para quem estava iniciando na área. Todo mundo que estava embarcando no estudo de plantas e humanos no Brasil encontraria essa dificuldade. Quase inconscientemente, tomei a responsabilidade de escrever e produzir material didático, pois não queria que uma outra geração de alunos com interesses em etnobotânica e etnobiologia passasse pelas mesmas dificuldades que eu passei. Em 2004 fundei uma editora, chamada NUPEEA, com o objetivo de publicar livros introdutórios à etnobotânica / etnobiologia em língua portuguesa, dirigidos maioritariamente ao público brasileiro e lusófono. Nos últimos 15 a 16 anos publicamos uma série de livros cobrindo essa lacuna na literatura no Brasil e considero esta uma das minhas principais missões e/ou contribuições.

Uma segunda missão é colaborar com outros pesquisadores para desenvolver um arcabouço teórico para a etnobotânica e a etnobiologia. Nos últimos 5 anos, junto com meus colaboradores, temos reunido esforços de pesquisa para o avanço de teorias de etnobiologia. Uma terceira missão é a formação e capacitação de pessoas na área de etnobotânica para promover a disciplina no Brasil. Tendo em vista que a disciplina ainda é emergente no país, houve a necessidade de formar profissionais qualificados e desenvolver competências na área. Hoje tenho muito orgulho de ter contribuído para a formação de etnobiólogos que já atuam em diferentes regiões do Brasil.

Em suma, estas são as minhas três principais missões: produção de material didático, desenvolvimento da capacidade profissional e desenvolvimento de referenciais teóricos em etnobotânica e etnobiologia.

Trabalho de campo na Caatinga com os primeiros alunos de graduação de Ulysses. 1999

Você considera sua formação inicial em biologia e botânica como influente para o que você faz hoje?

Essas disciplinas foram importantes na minha trajetória inicial, mas estou muito distante delas hoje. Meus interesses de pesquisa vão além da preocupação com a biologia vegetal para considerar em particular as relações entre os humanos e recursos naturais; este é o objeto principal da etnobiologia e de minha pesquisa. Vejo a relação humanos-plantas essencialmente como uma relação ecológica, na qual os humanos são apenas mais uma espécie nos diferentes ecossistemas. A medida que comecei a entender melhor essa relação, comecei a me distanciar da abordagem mais “clássica” da biologia vegetal, preocupada com taxonomia, fisiologia, anatomia, e comecei a migrar lentamente para os aspectos mais ecológicos e evolutivos dessa relação. Essa perspectiva abriu uma dimensão muito diferente no meu trabalho.

Como você se interessou pela etnobotânica?

Quando comecei meus estudos de graduação em biologia, estava mais interessado em biologia animal e não gostava nada de botânica. Detestava as disciplinas obrigatórias em biologia vegetal. No final do curso, matriculei-me em uma disciplina de botânica sistemática com a Prof. Laise de Holanda Cavalcanti Andrade (minha amiga e mentora) que tinha o objetivo de explorar as relações entre humanos e plantas, como na etnobotânica. Fiquei muito impressionado com isso. Durante todo o meu programa de graduação em biologia, eu realmente senti falta dos humanos – nós aprendemos muito sobre plantas, animais, microorganismos, mas onde estavam os humanos nesse esquema? Parecia que os humanos não faziam parte da biologia. Quando a Prof. Laise apresentou a possibilidade da pesquisa etnobotânica, percebi que era isso que eu queria fazer.


O que você queria ser quando era criança? Se você não fosse etnobotânico, o que estaria fazendo hoje?

Eu estaria trabalhando em medicina. Algumas das pesquisas que faço hoje têm alguma sobreposição com a pesquisa médica. Quando criança, eu queria estudar medicina por dois motivos principais. Quando alguém de minha família adoecia, me sentia impotente e muito mal por não poder ajudar. Quando criança, costumava dizer que seria médico. No final do ensino médio, me apaixonei pela biologia e disse ao meu então professor que gostaria de fazer meu bacharelado em biologia. Ele não me encorajou e me aconselhou inves a estudar medicina por considerá-la mais abrangente. Hoje discordo dele e considero a biologia um campo muito mais amplo. Tentei ingressar na faculdade de medicina, mas minhas notas foram insuficientes, então finalmente fui para biologia. Quando comecei meu bacharelado, tive a sensação de que estava fazendo a coisa certa e acheva muito difícil escolher quais módulos fazer, pois gostava de tudo.

Ulysses em seu primeiro evento nacional de etnobiologia com o Dr. Darrell Posey. 1996

O que o levou a escolher seus atuais temas de pesquisa sobre a relação entre humanos e plantas e como isso se relaciona com sua experiência de campo na etnobotânica brasileira (particularmente no ecossistema da Caatinga) e na medicina afro-brasileira?

Comecei a fazer pesquisas em etnobotânica com um projeto sobre religiões afro-brasileiras, um tema que a Laise, minha professora de botânica sistemática, propôs que eu focasse na minha dissertação final. Durante a pesquisa, comecei a refletir sobre as relações entre os humanos e as plantas através de uma perspectiva religiosa e sobre como as pessoas mantinham uma relação sagrada com a natureza. As plantas desempenham um papel central na religião afro-brasileira. O nome de muitas divindades africanas está, de fato, diretamente relacionado ao nome de plantas específicas. Existe um ditado Yorubá que diz “Kossi Ewe, Kossi Orixá”, que significa que não existe deuses sem plantas. Em outras palavras, o uso de plantas é condicional à continuidade de sua religião e práticas rituais. Quando africanos escravizados chegaram ao Brasil, eles não tinham acesso às plantas que tinham em sua região de origem, então foram obrigados a fazer adaptações. Em um artigo que publiquei há alguns anos no the Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine, argumento que essas adaptações seguiram principalmente três estratégias diferentes: (1) eles começaram a usar plantas locais que eram disponíveis no Brasil; (2) eles substituíram plantas consideradas equivalentes em sua cosmovisão; (3) eles começaram a importar plantas nativas africanas, que muitas vezes eram contrabandeadas em navios negreiros e, após o fim da escravidão, chegavam ao Brasil por meio do comércio. A religião afro-brasileira é de alguma maneira um ato de resistência, pois encontraram formas de dar continuidade à sua prática religiosas nas condições mais adversas. Hoje, eles usam plantas de diferentes origens e também incorporaram plantas usadas pelos povos nativos do Brasil em um intrincado sistema de troca de práticas rituais e de religiosidade.

A Caatinga é o principal ecossistema do nordeste brasileiro, onde estou sediado. Quando comecei meus estudos, essa área era amplamente negligenciada na etnobotânica, então meus esforços de pesquisa ao longo de minha carreira se concentraram em compreender a relação entre pessoas e plantas neste ecossistema em particular. A Caatinga é caracterizada por períodos de secas intensas, com duração de 8 a 10 meses no ano, e chuvas irregulares nos outros 2 a 4 meses. Quem mora na Caatinga, ou caatingueiro, precisa conviver com essa sazonalidade climática. Mas como isso afeta as pessoas que vivem lá? Mais recentemente, estive interessado em compreender a mente humana e como ela se modificou e se adaptou para ser capaz de lidar com desafios climáticos. Hoje estou muito interessado em entender a evolução da mente em relação às interações humanas com a natureza. Algumas das descobertas ou inovações teóricas que nosso grupo propõe à comunidade científica foram baseadas no uso de plantas medicinais neste ambiente. Por exemplo, existem várias ervas sazonais que são cientificamente reconhecidas como eficazes no tratamento de certas doenças. No entanto, são negligenciadas se comparadas a certas árvores perenes, que são menos abundantes e menos eficazes. Uma das hipóteses que desenvolvemos para explicar por que as pessoas preferem árvores a ervas neste ambiente é que as árvores lhes oferecem uma sensação de segurança: elas estão disponíveis como recurso o ano todo – enquanto as ervas, embora mais abundantes e eficazes, não são. Esse viés mental de segurança e sobrevivência é válido não só na Caatinga, mas também em outros ecossistemas. Estudos recentes em psicologia evolutiva descreveram esse tipo de preconceito como “memória adaptativa” ou preconceito que, inconscientemente, privilegia a lembrança de informações que são cruciais para nosso senso de segurança e sobrevivência em detrimento de outras informações. Crianças, por exemplo, conseguem se lembrar melhor de informações sobre plantas e animais venenosos do que aqueles que não o são.

Quem foram as pessoas mais influentes em sua carreira? Houve um ato de bondade ou encontro que mudou a trajetória da sua carreira?

Uma pessoa muito importante durante meu doutorado foi o ecologista Prof Marcelo Tabarelli. Fui fortemente influenciado por suas palestras e considero isso um momento decisivo para mim como cientista. Ser cientista em um país em desenvolvimento, onde a pesquisa não é valorizada ou apreciada, é extremamente desafiador. O Brasil está passando por um processo de ‘fuga de cérebros’, com muitas pessoas saindo para continuar trabalhando e fazendo pesquisa. Muitas pessoas me inspiraram ao longo da minha carreira e me incentivaram a não desistir, algumas delas provavelmente nem sabem disso. Entre eles estão a Dra. Ina Vandebroek do Jardim Botânico de Nova York, o Dr. Julio Hurrell da Universidade de La Plata na Argentina, a Dra. Ana Ladio da Universidade de Comahue na Argentina, o Dr. Rainer Bussmann da Ilia State University na Geórgia e Dr. Robert Voeks, editor do Journal of Economic Botany, que sempre me estimulou a alcançar meus objetivos de pesquisa. No Brasil também existem pessoas muito importantes que me inspiraram a continuar trabalhando e pesquisando, principalmente como colaboradores, como a Profa. Natalia Hanazaki e o Prof. Nivaldo Peroni da Universidade Federal de Santa Catarina.

Seu primeiro evento internacional de etnobotânica. Bariloche (Argentina), 2009.


Qual foi um ponto alto da sua carreira, um momento do qual você se orgulha?

Tenho muito orgulho do momento em que fui capaz de olhar para trás, para o que fiz e para o que outros pesquisadores ao meu redor fizeram e tentar sistematizar isso em termos de contribuições teóricas. Isso aconteceu no ano passado quando propusemos uma primeira teoria originada da etnobiologia, que é a ‘teoria social-ecológica da maximização’. Fiquei orgulhoso de sentir que estava cumprindo a missão de contribuir para o desenvolvimento da teoria na área. Essa teoria tenta explicar como vemos os recursos naturais, como escolhemos os recursos a serem usados e, uma vez selecionados, como organizamos o conhecimento em torno desses recursos. Em termos gerais, esta teoria social-ecológica postula que todos os critérios que usamos na seleção de recursos naturais são frequentemente baseados na maximização dos ganhos e na redução das perdas. Por exemplo, voltando à questão das árvores e ervas da Caatinga, qual a melhor estratégia, usar as ervas por serem mais poderosas, embora só estejam disponíveis de 2 a 4 meses no ano? Ou usar as árvores que, mesmo que não sejam tão potentes, estão disponíveis o ano todo? Essa avaliação de risco dita os comportamentos humanos em relação aos recursos naturais.

Qual seria um ponto baixo da sua carreira? Já houve um momento em que você olhou para si mesmo e pensou ‘que diabos estou fazendo’, ‘como vim parar aqui’?

O ponto baixo da minha carreira foi no início, quando senti o preconceito da comunidade acadêmica contra a etnobiologia. Isso era muito forte no Brasil naquela época; melhorou mais recentemente, mas ainda é um problema. A etnobiologia e a etnobotânica eram vistas pelos pesquisadores de outras áreas como ciência de baixa qualidade, ou mesmo como hobby ou não-ciência. Esta foi uma experiência muito traumática para mim, e espero que a nova geração de etnobiólogos não sinta o mesmo preconceito que experimentei. Uma das coisas que fiz para tentar remediar isso, com o apoio de colegas como o Prof. Romulo Alves (etnozoologista) e a Prof. Elcida Araujo (ecologista), foi criar o primeiro programa de doutorado em etnobiologia da América Latina – e também uma nova revista -, iniciada em 2011 na Universidade Federal Rural de Pernambuco em consórcio com outras três universidades locais. Foi um sonho que se concretizou, e tenho muito orgulho que agora exista um programa de doutorado para receber alunos de diferentes disciplinas que tenham interesse em estudar a relação entre a biota e o ser humano.



Qual seria o seu melhor conselho para um estudante de etnobotânica, talvez 1 ou 2 dicas, ou coisas que você gostaria de saber quando era estudante? Como você vê o futuro da etnobotânica?

Estude como funciona a ciência, a filosofia e a metodologia. Aprimore a arte do pensamento científico, pois isso pode ser aplicado a qualquer assunto ou disciplina, produza pesquisas de qualidade, contribua para a comunidade científica e também para as comunidades com as quais trabalhamos. Abrace o engajamento social em sua pesquisa. A etnobotânica se posiciona como mediadora entre os saberes acadêmicos e os saberes ecológicos locais ou tradicionais. Perceba que as pessoas com quem trabalhamos têm demandas e necessidades com as quais nós, como cientistas, podemos ajudar e contribuir. Em suma, fortaleça-se como cientista, mas também seja socialmente engajado.


A pesquisa etnobotânica tem potencial para ter um impacto social importante em áreas críticas nos próximos anos, como a escassez de alimentos e segurança alimentar, nutrição e serviços medicinais. Uma ciência engajada, voltada para responder questões de relevância social e abordar problemas reais, especialmente para a população mais vulnerável, é de extrema importância para o futuro da etnobotânica.



Você teria um pesquisador etnobotânico favorito?

Eu não diria favorito, mas uma pessoa que comecei a ler enquanto estava no bacharelado e mestrado e a quem sou extremamente grato por todas as oportunidades e amizade que essa pessoa me ofereceu ao longo de minha carreira, é o Prof. Robert Voeks, da Universidade da Califórnia. Cada vez que conversávamos, eu me sentia encorajado por suas palavras de apoio e estímulo, e isso é especialmente significativo quando vem de pessoas que respeitamos e admiramos. Muito obrigado Bob!

Qual livro você considera “a must read” em etnobotânica?

O manual de etnobotânica do Prof Miguel Alexiades. Eu recomendaria também os volumes que cobrem tópicos sobre aspectos teóricos e metodológicos da etnobotânica e etnobiologia produzidos por nosso grupo de pesquisa e editados por Springer e Elsevier, que foram publicados entre 2014 e 2019: Methods and Techniques in Ethnobiology and Ethnoecology (V. 1), Evolutionary Ethnobiology, Introduction to Ethnobiology, Ethnobotany for beginners, Methods and Techniques in Ethnobiology and Ethnoecology (V.2) e Ethnozoology. Esses volumes foram concebidos como parte de nossa missão de estimular as pessoas a iniciarem suas carreiras na área.

O que você faz no seu tempo livre? Algum passatempo secreto?

Sou fanático por filmes de terror e suspense, assisto a muitos no meu tempo livre. Também gosto de ler livros de fantasia que criam mundos e cenários imaginários, como O Senhor dos Anéis. Mas meu hobby principal é escrever histórias de ficção, especialmente crônicas e contos. Duas de minhas obras de ficção foram publicadas no Brasil. Também sou apaixonado pela cultura pernambucana, estado onde moro no Nordeste do Brasil, e sua cena musical, que é bastante eclética, mesclando influências externas com ritmos tradicionais locais.

Qual é a sua planta favorita e por quê?

Eu tenho duas plantas favoritas. A “Aroeira do Sertão” (Myracrodruon urundeuva), que é uma das plantas medicinais mais importantes para os habitantes da Caatinga. É muito versátil em termos médicos e é a primeira planta que as pessoas geralmente mencionam em pesquisas de campo na área. Também gosto da Jurema Preta (Mimosa tenuiflora, sin. Mimosa hostilis), que é uma planta sagrada e alucinógena usada em rituais afro-brasileiros e indígenas. Esta é uma das primeiras plantas que estudei e foi tema de um livro que publiquei com a antropóloga Clarice Novaes da Mota intitulado As muitas faces da Jurema.

Mimosa tenuiflora. Wikimedia Commons

*Entrevista realizada pela Dra. Cinthya Lana e por Kim Walker, membro do conselho estudantil do SEB. Esta entrevista é parte de uma série de entrevistas com etnobotânicos sobre suas trajetórias e carreiras. Caso queira entrevistar ou sugerir alguém, envie um e-mail para Kim em students@econbot.org

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